Uma das canções chassídicas em inglês mais populares do início dos anos 80, cantada por Mordechai Ben David, fala de um judeu que visita o Muro das Lamentações pela primeira vez em uma noite de Shabat. Ela descreve a cena:
Na noite de sexta-feira, no Muro das Lamentações, era a primeira vez que ele estava lá.
ORIGINAL:
The Western Wall on Friday night, his first time ever there
Strapped into his knapsack with his long and curly hair.
He stood there for a while, then broke out with a smile.
Emotion overwhelming joy with tears.
The men were dancing there, their hearts so full of love.
They sang such happy tunes to thank the One above.
For showing them the way, for giving them the day.
To rest, rejoice with peace of mind, to pray.
TRADUÇÃO:
Com a mochila nas costas e os longos cabelos cacheados presos à roupa,
ele ficou parado por um instante, depois abriu um sorriso.
A emoção transbordava de alegria, com lágrimas nos olhos.
Os homens dançavam ali, com os corações cheios de amor.
Cantavam canções tão felizes para agradecer a D’us,
por lhes mostrar o caminho, por lhes dar o dia,
para descansar, se alegrar com paz de espírito e orar.
Se você já esteve no Muro das Lamentações numa sexta-feira à noite, sabe do que se trata. Há uma sensação de amor por D’us que permeia aquela praça a céu aberto, com judeus de todas as origens, seus rostos radiantes com a santidade e a pureza do Shabat que se aproxima. Pessoas rezam em um canto, algumas dançam enquanto outras estão imersas em estudo ou reflexão. O amor e a alegria são tão palpáveis que chegam a ser contagiantes. É uma cena linda.
Reescavado para sempre
Curiosamente, a porção da Torá Vayera nos conta sobre os esforços de Avraham para cavar poços, e uma parte importante da narrativa sobre a vida de Yirschak na porção de Toledot detalha seus projetos de escavação. Um detalhe importante na história desses poços é que os vizinhos filisteus não ficaram nada satisfeitos com a ideia. Esse bando de invejosos tamparam os poços de Avraham não uma, nem duas, mas três vezes.
E todos os poços que os servos de seu pai haviam cavado nos dias de Avraham, seu pai, os filisteus os entupiram e os encheram de terra. 1
Foi somente uma geração depois que Yitschak conseguiu escavar os poços que seu pai havia cavado e mantê-los em funcionamento com sucesso.
Mas por quê? Como Yitschak conseguiu o que seu pai não havia conseguido? Qual era o seu segredo?
Avraham, o extrovertido; Yitschak, o introvertido
Os cabalistas ensinavam que nossos antepassados não eram figuras isoladas na história com grandes narrativas, mas sim arquétipos que servem como fonte de inspiração, instrução e empoderamento para todos os tempos. Mais especificamente, cada um de nossoss patriarcas personificava algo único, uma "marca" particular que, a partir de então, ficou permanentemente impressa no DNA judaico.
Quais são as “marcas” de Avraham e Yitschak?
Avraham é o arquétipo de chessed, comumente traduzido como “bondade/amor”. Yitschak, por outro lado, é o arquétipo de guevurá, “restrição/disciplina”. 2 A verdadeira “fonte” dessas características reside na imagem suprema do próprio D’us, e a partir daí, elas se manifestam na condição humana. Assim, a característica suprema de chessed de D’us está incorporada em Avraham, enquanto Sua característica suprema de guevurá está incorporada em Yitschak.
Como qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade sabe, bondade e amor são muito diferentes de disciplina e autocontrole. Na verdade, são essencialmente opostos. Ser bondoso e amoroso é abrir o coração, estender a mão e doar livremente. Uma pessoa amorosa é tipicamente extrovertida, sempre buscando acolher mais pessoas em seu meio.
Disciplina e autocontrole não poderiam ser mais diferentes. É quando você se sente reservado e introspectivo, criterioso, relutante em compartilhar com os outros e ansioso por deixar as ideias amadurecerem dentro de si mesmo.
Fiel à sua natureza extrovertida, o amor de Avraham era desenfreado e irrestrito. Seu amor era tão apaixonado e indiscriminado que se tornava contagiante e extremamente atraente. Isso explica por que ele tinha tantos seguidores.
É também por isso que ele estava sempre em movimento, compartilhando a consciência de D’us: ele estava apaixonado pelo D’us que havia descoberto e "precisava" que outros experimentassem a mesma alegria.
Yitschak era o pólo oposto de seu pai. Ele era tão apaixonado quanto seu pai, mas partindo de uma perspectiva de disciplina, contenção e reverência. Essa era a sua natureza, e se manifestava em seus relacionamentos com D’us e com os outros. A abordagem de Yitschak era mais introspectiva, cerebral e ponderada.
É claro que o caminho de Yitschak não é tão popular quanto o de Avraham. Yitschak não tinha muitos seguidores. Ao contrário de seu pai, ele não se afastou muito de casa, preferindo ficar em um só lugar e lidar com um público mais seleto que levava as coisas a sério. Isso não quer dizer que Yitschak tenha rejeitado a abordagem de seu pai. Ele apenas a interpretou em termos diferentes. Ele pegou aquela paixão e amor Divino, pelo mundo e pela humanidade e os filtrou em algo que ele sentia ser “real”.
Foi por isso que Avraham e Yitschak cavaram poços: eles se dedicaram à atividade de expor a água — que representa a vida, a energia e a bondade — que estava sob tudo. A abordagem de Avraham foi muito mais abrangente, enquanto a de Yitschak foi mais deliberada, mas o objetivo era o mesmo: cavar abaixo da superfície e encontrar a bondade.
Sustentabilidade
Eis a questão: qual é mais sustentável? Qual abordagem perdurará por mais tempo? Para minha surpresa, era a de Yitschak!
O amor e a paixão desenfreados parecem ótimos à primeira vista, mas são tão facilmente corrompidos. Basta perguntar a qualquer pessoa que viveu nos anos 60.
Esse é o segredo dessa coisa maravilhosa e esquiva que chamamos de "amor": ele precisa de disciplina. O amor precisa de trabalho. O amor precisa de orientação, limites, respeito e muita abnegação. Se for descontrolado e despreocupado, sem limites, ele rapidamente se torna hedonista, egoísta e perverso.
Muitos jovens, cheios de sonhos e ilusões, acreditam que o amor é uma poção mágica que se bebe e que, milagrosamente, funciona para sempre. Mas não é assim que funciona. Talvez por um mês, um ano ou dois. Mas certamente não para sempre.
Os poços de Avraham eram muito interessantes, mas eventualmente, ficaram obstruídos. A contenção deliberada de Yitschak é o que define o amor, estabelece parâmetros e diretrizes para esse amor e o faz durar para sempre.
Então ame, ame livremente e, acima de tudo… ame com sabedoria. 3

Faça um Comentário