Sentado no banco de trás do táxi preto que pegara assim que este deixou um passageiro em frente ao histórico Hotel Goring, ele calculou a distância até seu destino. Teve sorte de que aquele táxi aceitasse cartões de crédito, um serviço que a maioria dos táxis londrinos não oferecia, um grande problema para um turista sem moeda local e com pressa. Era uma tarde de sexta-feira ventosa, e uma garoa fina obscurecia a vista do Big Ben e do Rio Tâmisa enquanto o táxi cortava o trânsito londrino, passando do elegante bairro de Belgravia, no centro de Londres, para Westminster. Era 13 de setembro de 2013, duas horas antes do início do dia mais sagrado do ano, Yom Kipur.

A véspera do Yom Kipur é, sem dúvida, um dos dias mais movimentados do ano, repleto de tradições e rituais. Meu filho, o rabino Doobie Lisker, então estudante de yeshivá, estava em Londres auxiliando o rabino Mendel e a rebetsin Chana Kalmenson, emissários do Chabad-Lubavitch em Belgravia, na expansão de suas atividades para as Grandes Festas e Sucot.

Enquanto saboreava a segunda das duas refeições daquele dia, meu filho recebeu uma mensagem inesperada de um amigo de infância, Danny Illulian. Doobie havia encontrado Danny por puro "acaso", enquanto empurrava apressadamente sua mala por alguns quarteirões na Albany Avenue, no bairro de Crown Heights, no Brooklyn, Nova York, para pegar uma carona para o aeroporto. Mudanças de última hora no desfile do Labor Day, Dia do Trabalho, bloquearam o trânsito em seu local de embarque original.

De passagem, Doobie mencionou seus planos futuros para Danny. Danny disse que seu pai, um rabino renomado em Los Angeles, conhecia um judeu iraniano idoso em Londres que estava com a saúde debilitada. Ele sugeriu que o homem se beneficiaria de uma visita e de alguma inspiração, caso meu filho tivesse tempo, mas não havia fornecido mais informações até então, poucas horas antes de Yom Kipur. Danny mandou uma mensagem dizendo que, infelizmente, o estado de saúde do homem havia piorado e, por isso, enviou as informações de contato dele e o nome do hospital onde ele estava internado.

Pesquisando o endereço no Google, meu filho descobriu que o hospital ficava a 40 minutos de carro. Ele fez um cálculo rápido e decidiu ir para lá imediatamente, levando consigo apenas um tefilin e um machzor de Yom Kipur. No hospital, ele localizou facilmente o quarto do homem seguindo as instruções que recebeu na área de informações sobre pacientes.

Uma enfermeira estava ao lado da cama, ajustando o soro. Ao redor do idoso debilitado, estavam seus familiares, que valorizavam cada momento que lhe restava na Terra. Surpreendidos, mas gratos, viram Doobie e lhe disseram o quanto sua visita era significativa em um momento tão auspicioso. Doobie se aproximou para colocar o tefilin no homem, mas sua filha desviou o olhar do pai e sussurrou: “Ele está definhando diante de nós. A dor aumentou. Infelizmente, ele não está em condições de continuar”.

Em vez disso, Doobie colocou o tefilin nos dois filhos do homem, enquanto os observava, com os olhos marejados de lágrimas. A atmosfera no quarto ficou carregada de emoção quando o homem apertou a mão de Doobie com força, enquanto ele recitava o Shemá com a família.

Sem saber exatamente o porquê, Doobie abriu seu machzor e continuou a recitar a oração vidui, palavra por palavra. Em seguida, despediu-se rapidamente do homem e de sua família agradecida, retornando a Belgravia justamente quando o chazan começava a cantar o Kol Nidrei.

Os dias que antecederam Sucot foram repletos de preparativos. Mesmo com as melhores intenções, Doobie não encontrou um minuto sequer para enviar uma mensagem a Danny. Mas, na véspera de Sucot, recebeu outra mensagem de Danny informando que o homem havia falecido na manhã de Yom Kipur, poucas horas depois de Doobie ter recitado o vidui com ele.

Era a primeira vez, desde que o homem deixara o Irã, há mais de 30 anos, que participava de um serviço religioso. Ele havia sofrido uma terrível perseguição religiosa durante a Revolução Islâmica. Embora tivesse lutado bravamente, a devastação deixou suas marcas. Justamente quando a cura do seu corpo já não era possível, as orações fúnebres lhe ofereceram a cura do espírito que lhe fora roubado.

Um evento aleatório? Destino? Creio que não. Cada um de nós é um emissário de D’us, enviado a este mundo para cumprir algo específico, uma tarefa sagrada.1 Uma alma pode descer a este mundo e viver 70 ou 80 anos para fazer um favor material a um judeu, e certamente um espiritual. 2

O efeito dominó de pequenas decisões e eventos aparentemente insignificantes, e a maneira incompreensível como se entrelaçam, é a Providência Divina criando circunstâncias que nos conduzem exatamente aonde precisamos estar.